Você já parou para pensar qual a quantidade de lixo gerado
anualmente pela população mundial? Segundo dados da Organização das Nações
Unidas (ONU) de 2018, 99% dos produtos comprados
são descartados após 6 meses, gerando assim mais de 2 bilhões de toneladas de resíduos a
cada ano. O motivo para produzirmos tamanho volume se explica pelo modelo
econômico atual baseado em “extrair, produzir,
descartar”, conhecido como Economia Linear.
Diante do aquecimento global e da
poluição ambiental contínua, diversos estudos, dentre eles "Quebrando a Onda de Plásticos",
vêm apontando o esgotamento desse modelo
econômico e alertando para a urgência
em adotar uma nova postura. Dessa forma, é proposta a transição para um sistema baseado na extensão máxima da vida dos produtos por meio de processos de reaproveitamento.
Surge então o conceito de Economia Circular, inspirado nos
mecanismos naturais do ecossistema que gerenciam recursos de longo prazo em um
processo contínuo de absorção e reciclagem. Esse novo modelo é a promessa de solução efetiva para as
consequências da economia vigente e visa construir um mundo sustentável para
a geração atual e futura. Entenda melhor seu histórico, definição e
benefícios!
A origem da Economia Circular
Estima-se que as ideias iniciais sobre circularidade tenham
origens filosóficas e agregam uma série de importantes escolas de pensamento,
incluindo a economia de performance de Walter Stahel;
a filosofia de design do “berço ao berço” (em inglês cradle
to cradle) de William McDonough e Michael Braungart; a ideia de biomimética estruturada por Janine Benyus; a ecologia industrial de Reid Lifset e Thomas Graedel; o capitalismo natural de Amory e Hunter Lovins e Paul
Hawkens; e a abordagem da economia
azul (em inglês blue economy) descrita por
Gunter Pauli.
Contudo, o economista britânico Kenneth Boulding é apontado por alguns acadêmicos como o pai do termo. Em
1966, ao publicar o artigo “The economics of coming spaceship
earth” (em potuguês “A economia da futura espaçonave Terra”),
Boulding defendeu: “o Homem precisa encontrar o seu lugar em um sistema ecológico cíclico que seja capaz de reproduzir
continuamente a forma material, embora não possa evitar aportes de energia”.
Essa ideia, porém, também foi percebida - e difundida - por Ellen MacArthur, velejadora premiada mundialmente, quando ela deu a volta
ao mundo.
Nessa viagem, Ellen percorreu mais de 50 mil quilômetros em 3
meses. A velejadora dispunha de poucos recursos e precisava economizá-los ao máximo para manter sua sobrevivência em
alto mar. Ela percebeu que teria maior chance de uma vida confortável ao estender a vida útil dos suprimentos
enquanto velejava. Durante esse período, Ellen entendeu a importância da preservação e reaproveitamento dos recursos justamente por estes serem limitados.
Esse insight originou o instituto homônimo ao seu nome; Ellen
MacArthur Foundation. A missão da fundação é acelerar a transição para uma economia circular e, para isso,
trabalha com empresas, governos e academia para construir uma economia regenerativa e restauradora. Desde sua criação, a
Fundação e Ellen tornaram-se expoentes na
divulgação da Economia Circular e são aclamados por diversos especialistas e estudiosos
sobre meio ambiente.
O conceito de Economia Circular
Como
mencionamos, o modelo atual da economia linear segue o padrão “extrair-produzir-descartar”. Esse sistema se baseia na extração contínua dos recursos naturais e o descarte
constante dos produtos após seu consumo. O crescimento econômico depende da exploração de
matérias-primas finitas, o que traz risco iminente de esgotamento, além do volume
exacerbado de resíduos descartados na
natureza.
Em contrapartida, a economia circular, como o nome sugere,
faz com que o sistema econômico funcione como um
ciclo. A Ellen MacArthur Foundation define Economia Circular como uma
alternativa atraente na busca para redefinir a ideia de
desenvolvimento com foco em benefícios para toda a
sociedade. A proposta envolve dissociar a atividade
econômica do consumo de recursos limitados e, em princípio, eliminar o desperdício no sistema.
Na prática o processo cíclico inicia no reaproveitamento de matéria para produção e depois segue a
ordem de utilizar, reutilizar,
refazer, e reciclar, voltando assim à etapa inicial da produção e fechando o ciclo - ao mesmo tempo que começa um novo.
Dessa forma, essa transição econômica representa uma mudança no sistema, estabelece resiliência de longo prazo, gera oportunidades de negócios e traz benefícios ambientais e sociais. Apoiado pela transição
para fonte de energias e materiais renováveis, o modelo circular busca criar capital econômico natural e social ao garantir fluxos contínuos otimizados de materiais.
Os pilares da Economia
Circular
De acordo com a Fundação, existem 3 princípios básicos que fundamentam os processos da economia circular:
Princípio 1: Preservar e aumentar o capital
natural, controlando estoques finitos e equilibrando os fluxos de recursos
renováveis.
A natureza é a sustentação de toda a vida
humana.
O termo "capital natural" reforça o
entendimento da vida não-humana como responsável pelos recursos
básicos da economia de produção.
Em outras palavras, não são apenas as atividades humanas que
produzem valor. A partir desse pensamento, percebe-se como a vida humana também é impactada pela destruição dos serviços
ecossistêmicos.
Sendo assim, as atividades de produção humana dependem de capital natural. Logo, ao reaproveitar materiais, evitando uma nova retirada e conservando
materiais para a produção por muito mais tempo, estamos aumentando o potencial de crescimento econômico sustentável.
Princípio 2: Otimizar a produção de recursos fazendo circular
produtos, componentes e materiais no mais alto nível de utilidade o tempo todo,
tanto no ciclo técnico quanto no biológico.
De acordo com a Fundação, esse princípio seria o sinônimo de remanufatura, renovação e reciclagem para componentes e materiais continuarem circulando e contribuindo com a economia. O funcionamento prático deste princípio acontece através de ciclos biológicos ou ciclos técnicos.
Ciclos Biológicos
Em ciclos biológicos, a reintegração segura de
nutrientes biológicos na biosfera ocorre através da decomposição, a fim de transformá-los em valiosas matérias-primas para um novo ciclo. Os materiais são biodegradáveis ou obtidos a partir de matéria vegetal e retornam ao sistema por meio de processos como compostagem e digestão anaeróbica.
Dessa forma, no ciclo biológico, o processo natural da vida irá regenerar o material, com ou sem intervenção humana. Esses ciclos regeneram sistemas vivos fornecedores de
recursos renováveis à economia.
Ciclos
Técnicos
Nos ciclos técnicos, desde que haja energia suficiente, a intervenção do homem irá
restaurar e recuperar produtos, componentes e materiais por meio de estratégias como reutilização, reparo, remanufatura ou (como último recurso)
reciclagem. Essa ordem prioritária de reaproveitamento é escolhida pois menores circuitos internos (ex: reutilização, em
vez de reciclagem) envolvem menos gasto energético.
Dessa forma, são preservados energia e
outros tipos de valores inseridos nos materiais e componentes, como a mão de obra envolvida na produção. Esses
sistemas também podem maximizar o número de
ciclos dos produtos, prolongando sua vida útil e intensificando sua reutilização.
A tecnologia digital
também tem o poder de apoiar a transição para uma
economia circular por meio do aumento significativo da virtualização, desmaterialização, transparência e inteligência
orientada por feedback.
Princípio 3: Fomentar a eficácia do sistema revelando as
externalidades negativas e excluindo-as dos projetos.
Para a Fundação, “isso inclui a redução de danos a produtos e serviços de que os seres
humanos precisam, como alimentos, mobilidade, habitação,
educação, saúde e entretenimento, e a gestão de externalidades, como uso da terra, ar,
água e poluição sonora, liberação de substâncias tóxicas e mudança climática.”
Neste ponto, o foco é a obtenção de bons resultados
na gestão de recursos como solo, ar e água, extraindo os riscos de poluição ambiental e sonora e aumentando os
esforços para manter o círculo sempre
contínuo.
A Economia promissora
Em
análise feita pela União Europeia (UE) em 2015, investir em Economia
Circular representa, até 2030, o crescimento de 7% do produto interno bruto (PIB) da economia europeia, redução do consumo de matérias-primas em 10% e diminuição das
emissões anuais de CO2 em 17%.
No mesmo ano, a Ellen MacArthur Foundation, a SUN e
a McKinsey notaram
que, adotando princípios da economia circular, a Europa pode aproveitar a iminente revolução tecnológica para gerar um benefício líquido de 1,8 trilhão de euros. Para determinados bens
de consumo (alimentos, bebidas, têxteis e embalagens), é estimado o potencial
global de US$ 700 bilhões por ano em economia de
recursos, equivalente a 20% dos custos de insumos
nesses setores.
Ainda na Europa, o plano de ação chamado “Closing the Loop - An Action Plan for
the Circular Economy” (em português Fechando o Ciclo - Um
Plano de Ação para a Economia Circular”) foi instituído em 2015 e
foram concedidos mais de 650 milhões de euros em
crédito para financiar projetos inovadores nesse segmento.
Esse movimento, porém, não é exclusivamente europeu. Na China a
promoção da economia circular vem sendo incorporada nos planos governamentais há ainda mais tempo, desde o início
dos anos 2000. Em 2009, o governo chinês deu novos importantes avanços a partir
da Lei de Promoção da Economia Circular, baseada no uso
eficiente dos recursos a partir de incentivos fiscais, apoio financeiro e
regulações.
Aqui no Brasil, indicadores como o Índice de Sustentabilidade Empresarial
(ISE), criado para nortear fundos de investimentos da B3,
tem buscado identificar empresas
alinhadas às práticas de sustentabilidade. Esse tipo de indicador destaca as empresas mais
sustentáveis do mercado, favorecendo e atraindo investimentos em seus modelos
de negócio. Além disso, esse destaque facilita a busca por crédito em instituições financeiras, uma vez que estas
perceberam a importância e segurança na
contribuição com o meio ambiente. Podemos observar essa movimentação através da recém lançada agenda de sustentabilidade ambiental do
Banco Central.
No dia 8 de Setembro (2020) o tópico sustentabilidade foi inserido na agenda institucional do Banco,
incluindo ações desde campanhas internas de
conscientização ambiental à meta do aumento em 20% da linha de crédito para produtores rurais
alinhados às características sustentáveis. Entusiasmado com a nova
agenda, Roberto Campos, presidente do
Banco Central, comentou: “Na dimensão
sustentabilidade, vamos tratar da questão ambiental do ponto
de vista financeiro. Vamos falar de promoção de finanças
sustentáveis, gerenciamento adequado dos
riscos socioambientais e climáticos, integração de variáveis sustentáveis e outros elementos que afetam a tomada de
decisões pelo BC".
Dessa forma, podemos ver um movimento global rumo à esse novo
modelo econômico. Número atuais reforçam essa ideia: segundo estudo recente feito pela
Fundação, agora em 2020, foi apontado o crescimento de fundos de crédito privado com foco na economia
circular. Criado por instituições como BlackRock, Credit
Suisse, Goldman Sachs e RobecoSAM,
dentre outras, esse aumento representa mais do dobro de
investimento desde 2018 e atinge mais de 30 produtos como fundos de capital de risco, capital
privado e dívida privada. Além dos grandes investimentos, a prática circular já
apresenta resultados importantes: 13% do faturamento da
Philips foi oriundo de soluções
circulares em 2019, por exemplo.
Além das vantagens financeiras
As vantagens desse modelo, porém, vão muito além das
financeiras.! Os benefícios da transição para a nova
economia podem englobar aspectos ambientais - como vimos na
própria conceituação do sistema
A logística reversa pós-consumo,
ferramenta da economia circular, é uma ótima opção para a redução da poluição e seus respectivos impactos na saúde humana
e no meio ambiente. Ela representa um estímulo à reciclagem, redução na exploração da matéria-prima virgem e diminuição na emissão de Gases do Efeito Estufa (GEE), catalisadores do desequilíbrio climático.
Além das vantagens ambientais, esse sistema traz vantagens sociais. A logística reversa pós-consumo contribui na profissionalização, promove aumento de renda e impacta nas melhores condições de vida e trabalho dos
catadores de materiais
recicláveis.
Setores privado e público trabalhando em conjunto
O tema Economia Circular tem aparecido em escala global e está
relacionado à sustentabilidade do desenvolvimento econômico e social. Os
consumidores e as organizações já perceberam que adotar esse sistema não é mais uma questão de possibilidade, mas
sim de necessidade. Todavia, é preciso um conjunto de competências político-econômicas nas esferas pública e
privada para tratar de tais questões.
No esfera pública brasileira, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)
se mostra capaz de trazer progressos rumo à circularidade no país. A PNRS
determina como um dos princípios a responsabilidade
compartilhada e estabelece os sistemas de Logística Reversa como
instrumentos de sua implementação, os quais atuam sobre o ciclo de vida de produtos, capazes de prolongá-los e fechá-los, reduzindo a quantidade de resíduos
descartados.
A lei de 2010 estabelece um novo marco regulatório da gestão de resíduos no país ao reunir um conjunto de princípios, objetivos, ferramentas e diretrizes para a administração integrada e ambientalmente correta de resíduos sólidos. Nos últimos 10 anos, empresas vêm buscando se enquadrar na nova dinâmica e para isso desenvolvem ações voltadas para a economia circular.
Exemplos a serem
seguidos
Como exemplo de iniciativas privadas podemos citar a companhia Unilever,
parceira da Fundação Ellen MacArthur, que em 2017 assumiu o arrojado
compromisso de reduzir 100 mil toneladas de plástico virgem ao ter 100% de suas embalagens plásticas
reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis até o ano
2025. Outro compromisso assumido foi acelerar a utilização de plástico de
reciclável ao empregar 25% do material na
composição de novas embalagens. Um ano após o lançamento dessa campanha, a Unilever convocou outras empresas da indústria de
bens de consumo a se alinharem às práticas circulares e acelerar o processo de transição da economia. O objetivo era circularizar por completo a vida útil do plástico de forma a
combater as assustadoras previsões da época.
Outro bom exemplo é da L'oréal. Segundo a Diretora de Sustentabilidade da
empresa, Maya Colombani, a empresa está integrando cada vez mais plásticos reciclados em seus produtos e tem como meta
produzir embalagens 100% compostas
por plástico reciclado ou renovável até 2030. Além disso, a empresa investe em uma startup de biotecnologia para reciclar o plástico
das embalagens e ainda pretende aplicar 50 milhões de euros
em soluções disruptivas para reciclagem.
Como as previsões não melhoraram e os estudos seguem alertando constantemente para um futuro preocupante devido à atual economia linear, só nos resta mudar.
Segundo a Fundação Ellen MacArthur, essa transição econômica é o ponto chave para revertermos os impactos causados pela ação humana e
se faz extremamente necessária para a construção de
um mundo mais justo e sustentável.
Copiado: https://www.creditodelogisticareversa.com.br/
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