quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Solidão do Suicida

Sim, pessoal, este é mais um texto (entre muitos) a falar sobre o suicídio. Então, sente-se onde quer que você esteja, acomode-se confortavelmente porque iremos falar sobre um assunto que merece toda a nossa atenção e compreensão. Mas, se você não estiver afim de ler o que tenho a dizer, tudo bem. Você pode fechar este site e seguir sua vida como se nada tivesse acontecido.
Nas últimas semanas, temos vivido um hype considerável em torno da série 13 Reasons Why, recente lançamento da Netflix e que trouxe à tona o debate em torno de questões importantes como suicídio, depressão e bullying
A série, baseada no livro homônimo, dividiu opiniões e fez o mundo do entretenimento se rachar em dois, separando aqueles que acham que a série foi de grande importância para o debate sobre saúde mental daqueles que a consideram um desserviço em termos de psicologia e combate ao suicídio. Eu, particularmente, compreendo os argumentos de ambos os lados e os considero bastante razoáveis, mas ainda sou levado pela forma como, de repente, todos estão falando de assuntos que são considerados tabus na sociedade. E isso, apenas isso, me faz ver a série com bons olhos (ainda que eu concorde que ela não seja para todos).
Mas, falando especificamente sobre suicídio, quis dar minha opinião no tema porque, em parte, convivo com ele já há algum tempo; em parte porque me preocupa que as pessoas tenham medo de lidar com algo que é tão real e tão destrutivo.
Venho de uma família com histórico de suicídio e depressão. Tenho amigos que já tentaram se matar (intencionalmente ou não) e já estudei com pessoas que (talvez por uma questão de desespero ou qualquer que fosse o motivo) tentaram dar cabo à vida. Estudei vários anos numa universidade que é considerada um dos locais com maior índice de suicídio no Rio de Janeiro (se você é do RJ, sabe de onde estou falando). Suicídio, para mim, não é mais uma palavra incomum. Quando paro para pensar nela, me surpreendo ao perceber o quanto ela é presente em minha vida e isso, definitivamente, não é legal.
Todavia, o senso comum parece tentado a ver o assunto de forma bastante relativizada, infantilizada e romantizada. Somos levados a crer que todo o aspirante ao suicídio é uma pessoa carente de atenção ou que reclama demais da vida. Chegamos até ao ponto de dizer que “tem pessoas com problemas piores” e que, por isso, ela não tem motivos para se matar.
Amigos, entendam, nenhum problema é maior do que o seu e ninguém sabe a dor que você carrega além de você mesmo. 
Quando você diz a alguém (depressivo ou não) que ela/ele não tem motivos para estar triste, você ignora todo o universo particular em que ela/ele vive em prol de uma filosofia utópica de superação a todo custo. As pessoas são frágeis e, especialmente em nossos dias, isso parece ter ganhado outra dimensão com o advento da realidade virtual promovido, principalmente, pelo crescimento das redes sociais.
Não estou dizendo que a tecnologia é a grande vilã na história, pelo contrário, ela tem sido, em muitos casos, a grande aliada. O problema somos nós e está em nós. Num mundo cada vez mais tecnológico, cada vez mais desenvolvido, temos nos afastados mais das pessoas quando deveríamos fazer o contrário. As pessoas tem se isolado em suas bolhas particulares e isso tem nos deixado doentes. Não é à toa que o índice de depressivos tem aumentado no Brasil.
É preciso entender que depressão e suicídio não são simples baboseiras de quem é carente de atenção. É preciso, ainda, tirarmos da nossa mente aquela visão estereotipada do depressivo, como se todo depressivo fosse aquela pessoa que vive enfurnada 24h por dia dentro de casa, debaixo dos cobertores, sem ver a luz do sol. A depressão é uma doença multifacetada e que, por vezes, passa despercebida pelas outras pessoas. Você pode não suspeitar, mas aquele seu amigo que você gosta tanto pode sofrer com isso e você nem imagina. 
Às vezes, um sorriso largo demais pode esconder dores profundas demais. E se existe um consenso em torno do assunto é que as pessoas evitam falar de suas dores nas almas por medo do que as pessoas vão dizer sobre elas. E se depressão ainda é um tabu, falar que faz tratamento psicoterapêutico não fica para trás.
Falar de doenças mentais pode ser um tanto controverso porque as pessoas ainda persistem no estereótipo do louco descontrolado quando se trata do assunto. entretanto, a verdade é que nem todo doente mental é louco ou descontrolado, existem os transtornos de humor, os transtornos afetivos, de identidade e de outros tantos tipos que apenas nos mostram o quão complexa pode ser a psiqué humana.
O que é importante é que precisamos entender que o depressivo precisa de ajuda, que ele não é apenas  “mais um querendo atenção”. 
Precisamos mostrar que essas pessoas não estão só, pois é essa solidão que, muitas vezes, induz ao suicídio e ao sofrimento que isso gera. Aquele que cogita tirar a própria vida não faz isso simplesmente porque quer morrer. Aliás, a ironia disso está justamente no fato de que grande parte dos suicidas não quer morrer de fato, mas apenas silenciar a própria dor, o vazio que o consome, o sentimento de solidão existencial, a ausência de sentido. Num mundo onde cada vez mais pessoas estão doentes, todos nós podemos ser um suicida em potencial. O que nos impede é apenas os laços que temos aqui, mas no fundo, todos estamos na beirada de um alto prédio, esperando o momento em que nada mais fará sentido.
Paz e luz.

Autor: Pedro H.C. de Sousa - https://epitafiosaparte.wordpress.com

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Se você precisa de ajuda, não hesite em procurá-la. Existem pessoas dispostas a ouvi-lo(la), existem especialistas em vários cantos do país dispostos a recebê-lo. Abaixo, compartilho os dados de contatos do Centro de Valorização da Vida – CVV, uma ONG que atua no combate ao suicídio e no apoio às pessoas com doenças mentais.
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Telefone: 141
Lista de postos de atendimento do CVV: http://www.cvv.org.br/postos-de-atendimento.php

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