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Administrador de Empresas(UEMA), Mestrado em Administração(FGV-RIO), Professor Universitário (FAMA/UFMA), Ex-Presidente do CRA-MA, Ex-Conselheiro Federal de Administração - CFA, Empresário (DEPYLMAR, ), Ex-Conselheiro Fiscal da ANGRAD, Vogal da Junta Comercial do Maranhão (JUCEMA)Consultor de Empresas, Avaliador do INEP/MEC, Maranhense de Pedreiras, filho de Valdinar e Cavalcante Filho, Casado (Graça Cavalcante), 02 Filhos (Nathália Johanna e Diego Henrique), apaixonado pelo Moto Club de São Luís, Botafoguense de Coração e Feliz da Vida...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Efeito WhatsApp é mimimi dos que se ancoraram no passado

Destino das operadoras brasileiras foi traçado quando decidiram ignorar tendências e inovações por mais de 15 anos

 Dez milhões de linhas de celular foram canceladas este ano. É a notícia que temos lido por aí. Como em outubro último a Anatel registrou 273,79 milhões de linhas ativas, então 3.65% do total foram desativadas. Deve ser bem normal o cancelamento sistemático de uma boa quantidade de linhas ano a ano. Se foi maior agora, talvez seja pelo número total também ter sempre aumentado. Ou por algum outro fator, como uma iniciativa por parte das operadoras de finalmente eliminar linhas há muito ociosas etc. (o que não temos como saber). Tanto faz.
À parte a significância ou não da notícia, junto com ela circula uma análise que credita esses cancelamentos a uma mudança no padrão de consumo, o tal Efeito WhatsApp: a comunicação tradicional por voz está sendo substituída pelo uso de aplicativos (e ferrando as operadoras, merecidamente). Isso me lembrou que o fundador do WhatsApp procurou o Twitter e o Facebook em 2009 pra "vender" sua ideia. E foi dispensado por ambos. O resto é história.
Mas vamos refletir um pouco mais... Em 2009 o iPhone tinha dois anos. O que o cara do WhatsApp pensou e fez — e foi lá oferecer pra Facebook e Twitter — foi um novo ICQ. Um novo MSN. Um novo Skype.
Veja, não estou dizendo que o WhatsApp não teve méritos ou não era melhor que os anteriores. Claro que sim! Por isso é o que é hoje. Mas reconheçamos: era uma evolução, um novo estágio de um paradigma de comunicação instantânea já muito bem conhecido. Naturalmente, ele apresentava melhorias, como a interface, a interação etc. Não sabemos como foram as duas reuniões. Não temos como saber se ele entrou lá e falou: "Proponho uma nova versão do ICQ/MSN/Skype, só que pra smartphones, com estas e essas melhorias".Ou que ele não tenha apresentado a ideia dessa forma, mas no final ouviu do avaliador: "Então você tá propondo um novo ICQ/MSN/Skype, só que pra smartphones?" —  e esse diagnóstico depreciativo justificou o desinteresse na ideia.
O ponto é que 99% do Universo é timing. Nem toda inovação é a disruptiva. O processo de inovação não pode se resumir apenas ao risco de apostar numa disrupção (a busca cega pelo próximo monopólio), mas perpassa também a necessidade de investir no desenvolvimento da capacidade de identificar tendências e reconhecer novas etapas evolutivas de tecnologias que muitas vezes já existem e são até difundidas. (A Kodak é um exemplo emblemático do que pode acontecer com uma empresa desatenta à tendências e ao timing de algumas tecnologias.)
Entendendo isso, toda empresa pode decidir não desenvolver essa percepção pra tendências e evoluções e apostar na estratégia do risco total em disrupções: colocar mais dinheiro na incerteza das disrupções e assumir o risco de perder todo o dinheiro caso fracasse. O que ela não pode é não fazer um nem outro e depois pagar de vítima: não arriscar na disrupção e também não estar atenta a tendências e preparada pra testá-las, entendê-las e aprimorá-las. Sendo esse caso, a empresa simplesmente não tem estratégia alguma de inovação e o barco fica à mercê dos humores do caos, restando apenas o mimimi como desculpinha pro que, na verdade,  pode ser explicado por incompetência pura.
A disrupção criou alguma parte das maiores e mais conhecidas empresas de tecnologia do planeta, e tem criado centenas de unicórnios. Mas a outra parte é composta de empresas bilionárias cuja inovação foi catalisar uma nova etapa pra tecnologias já disponíveis. Como o WhatsApp. Como a Tesla e a SolarCity.
O Uber é outro exemplo. Não é uma disrupção, mas sim o empacotamento de tecnologias que existiam (mas estavam dispersas) pra atender uma demanda suprimida (que nem eles precisaram criar) e que aproveitou o momento da economia compartilhada (timing). Inovação sem disrupção. Mas inovação!
De volta ao Brasil e aos mimimis das operadoras pelo "Efeito WhatsApp": segundo nos dizem, então, o volume de faturamento estaria comprometido por culpa de um aplicativo de IM que nem Facebook e Twitter tiveram a capacidade de perceber o valor na época em que foi criado. (O Facebook comprou o WhatsApp por US$ 23 bi.) Agora me diga: será que essas quatro operadoras e seus "departamentos de inovação" (se é que existem pra além do marketing) iam arriscar e criar ou reconhecer ou investir e incentivar e desenvolver uma inovação qualquer? Ainda mais no Brasil?
Se Facebook e Twitter disseram não ao WhatsApp, quantos nãos nossas operadoras devem ter dado nestes 15 anos pós-privatização a qualquer boa ideia que cruzou o caminho delas e eventualmente poderia ajudá-las a não ser apenas um grande varejão quantitativo despreocupado com novos produtos, serviços de qualidade e atendimento decente ao cliente? Inovação nunca esteve na estratégia de negócio deles. Essa é a verdade. 
Assim os anos passam. Vem o iPhone. Passam-se dois anos. Vem o WhatsApp...

O Caso do SMS

Pra ilustrar com mais dramaticidade o quadro acima, vamos tratar rapidamente do caso do SMS no Brasil. A capacidade de envio e recebimento de mensagem de texto é um recurso inerente da plataforma tecnológica que sustenta uma rede de celulares. Não é um opcional, não é um equipamento a mais. Toda a rede da operadora porta esse recurso desde o primeiro dia de funcionamento, como todos os aparelhos de celular sempre saíram de fábrica com o potencial pra troca de SMS, do mais simples e barato ao mais sofisticado e caro. No Brasil, as quatro operadoras orquestraram um foco nos serviços de voz, os mais lucrativos. Induzindo o consumo de produtos mais rentáveis pela formatação e manipulação dos planos de voz, foram deixando de lado outros benefícios da tecnologia móvel, como o SMS. Pra não incentivar o uso de SMS, mas o de voz, cobraram caro pelo recurso e estrangularam o potencial de se manter mais próximo do consumidor ao atender sua necessidade de comunicação textual simples e rápida. Mas eles não estavam atentos e interessados numa relação mais duradoura, numa dependência mais decisiva no dia a dia do cliente. Nos últimos 15 anos foi nos cobrado muito caro pra enviar SMS. Só a partir de 2011 que as operadoras começaram a baratear um pouco o acesso ao SMS. Hoje os valores estão entre R$ 0,30 e R$ 0,60 por mensagem.
Por cerca de R$ 15 é possível ter pacotes de 300 ou 500 mensagens, dependendo da operadora. Por R$ 0,60 ao dia, algumas oferecem SMS ilimitado (cerca de R$ 18 ao mês). Esses valores parecem razoáveis, mas continuam fora da realidade, ainda mais se comparados com preços praticados no exterior. E foi como dissemos acima: por terem cobrado sempre muito caro ao longo de muitos anos, não incentivaram o uso do SMS e a tecnologia não se popularizou. Foi sendo estrangulada aos poucos. Quando os preços pra SMS começaram a melhorar há 3 anos, a tecnologia não fazia mais parte do dia a dia dos clientes. Clientes esses que já tinham migrado pra comunicação textual via smartphone+internet, pra agora estarem no VoIP e ameaçando a estratégica monológica das operadoras. Veja o caso dos Estados Unidos. Lá o SMS sempre foi acessível, por isso ainda é muito difundido: os pacotes mais populares incluem SMS ilimitado pra qualquer operadora. Quando o Facebook comprou o WhatsApp, muitos americanos não sabiam o que era e fazia o aplicativo pois ele não costuma ser popular em países que não cobram uma fortuna pelo SMS.          Veja este gráfico, pinçado de um post do Benedict Evans sobre a expansão do WhatsApp em relação ao SMS:
Basicamente, em países que cobram pouco pelo uso do SMS, os clientes costumam mandar entre 100 e 300 mensagens por mês. Nos que cobram caro, a quantidade mensal de mensagens não chega nem a 50 por cliente. Agora não dá mais tempo. Quem tem se comunicado gratuitamente por WhatsApp não vai querer pagar por SMS, mesmo que esteja mais barato. O SMS ficou pra trás. Já era. Proponho um experimento mental: imagine uma realidade paralela onde as operadoras tomaram decisões estratégicas pra beneficiar seus clientes e não apenas lucrar ao máximo em cima deles. Imagine se ali por 2005, dois anos antes da criação do iPhone, as operadoras tivessem lançado um plano de SMS ilimitado por R$ 5. Além de se comunicar por voz, qualquer um poderia trocar quantas mensagens quisesse pagando apenas isso.

Uma decisão assim teria popularizado a tecnologia e as operadoras seriam mais relevantes ao darem uma utilidade a mais pra quem tem celular, indo além da obviedade que é oferecer apenas ligações. (Isso foi mais ou menos o que o Silvio Santos fez com o SBT On-Line, quando lançou um plano ilimitado de internet no final dos anos 90 e "obrigou" todos os grandes provedores a fazer o mesmo.) Mas nossas operadoras não fizeram nada disso. Foram ineptas. Não investiram em disrupção. Não deram atenção a tendências e melhorias óbvias em tecnologias existentes, então nunca realmente as compreenderam. Não fazendo isso tudo, também não quiseram oferecer aos clientes recursos úteis que estavam a disposição, muito menos popularizá-los a preços baixos. Quiseram agradar apenas os acionistas, lucrando o máximo possível com voz.
Quando se percebe isso, entendemos que só resta ouvir o mimimi mesmo. É inevitável. Foi o destino que traçaram pra si próprias. 
Pra finalizar, dá uma sacada neste vídeo do Skype (crianças americanas e mexicanas conversam nas suas respectivas línguas nativas mediadas pela nova tradução instantânea do aplicativo): https://youtu.be/G87pHe6mP0I
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